Olá! Vamos inaugurar o Recovery Console. Houve já o post inaugural, mas este agora será o primeiro com função efetiva, por assim dizer.
Escrevo essas linhas deitado na cama, com sono e com a cabeça doendo na nuca depois de um Reveillon fora de casa. Que fique registrado, esta foi minha primeira passagem de ano longe de meus pais, comemorada com meus amigos de escola que não via há algum tempo.
Foi tudo muito divertido. Começamos na casa de um deles, depois saímos para ver os fogos e então voltamos e conversamos até o amanhecer.
Claro que bebemos o suficiente para ficarmos alegres, me empolguei e entrei no mar com roupa, celular e tudo, junto com parte da galera, que foi de cueca para a água. Bati muitas fotos mas, apesar de ter tentado manter o celular acima da linha d’água, parece que a água salgada danificou o aparelho… Preciso resgatar as fotos e parte da agenda dele… talvez Bluetooth ou USB… paciência. Pelo menos agora tenho desculpa pra comprar um Motocubo…
Bom, eu já havia saído um bocado de vezes em 2009, inclusive voltando após o sol raiar e, em duas ocasiões, em estado muito pior que minha sobriedade praticamente total de agora, mas na maioria das vezes meu pai não estava em casa.
Ano passado (ontem) foi diferente. Ele deve ter pensado em passar mais uma virada em casa, talvez dormindo como da ultima vez, ou assistindo clipes na TV, com minha mãe e eu também em casa. Chegara até a recusar convite de colegas para um festa numa cidade litorânea do interior do estado.
Eu não avisara que iria sair. Nem me preocupara com isso tampouco. Afinal, o convite também foi em cima da hora! Comentara apenas com minha mãe, por casualidade, no próprio dia. Mas ela se empolgou. Acabou contando ela mesma pro meu pai antes de mim, e também aproveitou para sair ela mesma para a praia, para desgosto de dele. E ainda me meu uma garrafa de espumante escondido.
Notei que ele estava contrariado pela minha suposta tentativa de esconder o programa e por a princípio o deixarmos sozinho na programação de fim de ano, mas não vi nada que pudesse fazer a respeito. Me despedi e fui. Quando voltei, umas três horas atrás mais ou menos… meu pai me esperava me pé em frente à porta.
— QUE PAPELÃO É ESSE?
— Qual papelão?
— POR QUE NÃO CONSIGO FALAR COM SEU CELULAR?
— Ele quebrou. — mostro o celular com tampa, bateria e SIM soltos em um copo plástico, já que meus bolsos estavam molhados.
— E NÃO PODIA LIGAR PRA DIZER QUE ESTAVA TUDO BEM?
— Ué? Se estava tudo bem, não vi necessidade de ligar para avisar que o celular quebrou. Se houvesse algum problema eu entearia em contato.
— AH, SIM! SÓ QUANDO VOCÊ PRECISA DA GENTE É QUE VEM CORRENDO! MAS AGORA NÃO VAI TER MAIS ATENDIMENTO! AS PESSOAS LÁ NÃO LIGARAM PRA FAMÍLIA?
— Ninguém fez isso.
— MAS ESTAVAM COM O CELULAR LIGADO, CASO A FAMÍLIA LIGASSE.
— Ninguém também ligou para eles.
— PORQUE SÃO TUDO PAIS QUE NEM QUEREM SABER DOS FILHOS! FUDIDOS! TOMARA QUE MORRAM TODOS… COMO VOCÊ VOLTA APÓS O AMAMHECER?
— A mãe está acostumada. — gente, isso não é incomum. Quem é ele pra questionar isso?
— ELA FICA PASSANDO A MÃO NA SUA CABEÇA! VOCÊ NÃO PERDE POR ESPERAR! E CADÊ O TELEFONE DO SEU AMIGO? VOCÊ DISSE QUE ESTAVA EM CIMA DA MESA MAS NÃO CONSEGUI FALAR COM ELE!
Eu não havia deixado o telefone anotado como ele pedira, pois sinto-me agredido por tal atitude. Mas menti.
— Está lá. Vou lhe mostrar. — disse enquanto terminava de trancar a porta, sem pensar em como iria mostrar um papel que não existia. Por sorte, minha lista de telefones estava sobre a mesa (estava ligando para todos para desejar feliz ano novo), então mostrei o papel no lugar.
— É, NÃO ENCONTREI O PAPEL NO MEIO DESSA BAGUNÇA! O QUE VOCÊS FIZERAM LÁ? FICARAM LÁ NA CASA DELE O TEMPO TODO?
— Sim. — outra coisa que meu pai sempre falara era que eu nunca acompanhasse o grupo para sair do local original, mas isso, você há de concordar, não existe.
— E COMO O CELULAR QUEBROU?
— Escorregou de minhas mãos e caiu no isopor com gelo… — e tive de completar a frase, já que escolhi mal a história — …onde havia bebidas.
— VOCÊ ESTAVA BÊBADO.
— Não estava. — eu devia ter dito que o celular quebrou de velho…
— VOCÊ ESTAVA BÊBADO.
— Não estava. — agora, como durante toda a conversa, olhando firmemente em seu olhos.
— VOCÊ NÃO TEM CONSIDERAÇÃO POR NÓS! VOCÊ NÃO PENSA NOS OUTROS! SÓ EM SI! QUERO CORTAR SEUS PRIVILÉGIOS! […]
É… que ótima forma de se começar um ano. Conscientemente não briguei com ele, embora de toda forma estivesse cansado demais para isso. Tomei banho, paracetamol e vitamina C, botei minhas roupas para dessalgarem no tanque, o copo com o celular sobre a impressora e deitei-me. Já ele foi fumar dois cigarros de nervoso, e também foi dormir após uma madrugada de preocupações.
Eu não entendi direito o que fiz de errado. Talvez não devesse ter urinado no mar. Talvez não devesse ter destratado um celular que me serviu tão fielmente por… apenas dois anos, mas já com três visitas à assistência técnica e novos defeitos recém surgidos. Talvez devesse, sim, ter dito “deixa de ser babaca!” pro taxista que recusou uma corrida de cinco minutos e dez reais com a desculpa esfarrapada de que ia parar pra comer logo mais adiante, cuspido na cara dele e quebrado o parabrisa traseiro com a garrafa de espumante. Ou ter ignorado a senhora de 40 e caralhada que pulava as sete ondas de topless, o rapaz que comemorou os primeiros minutos de 2010 queimando um beque e a miríade de homossexuais, todos de branco, que curtiam a noite morna de verão de forma mais comportada que muitos héteros.
Eu falhei, então, em dar satisfação a meu pai de que eu estava bem? Ele ouviria o burburinho e os gritos do entorno se ligasse da praia. Ouviria a música e o falatório se ligasse da casa do meu colega. Isso se as linhas não estivessem congestionadas, como de praxe nessa ocasião. Ele tem uma imagem irreal de que ainda seria calmo (besta) e que os eventos a que vou seriam igualmente calmos.
E por mim está ótimo assim. Não quero ele se metendo na minha vida no que diz respeito ao que faço com meus conhecidos.
É claro que isso é um tipo de mentira, e como tal não tem pernas muito longas; às vezes me contradigo ao responder o que fiz. Talvez ele não seja tão idiota e perceba certas coisas, mas se recuse a acreditar na verdade.
Eu querer ser como todo mundo é tão ruim assim? Sem ligar de hora em hora (ou uma vez sequer na noite) pra casa? Sem ter de esconder coisas tão bobas que dificilmente poderiam ser consideradas erradas mas que são motivo de constrangimento por meu pai? Ficar, ir com a galera para outros locais, falar com os amigos, ver esses amigos pessoalmente, gostar de musicas de balada, gostar das baladas?
Eu não sei o que fazer. Ele me ameaça com a retirada da mesada, da qual dependo para prosseguir os estudos; com a expulsão de casa, eu ainda sem poder trabalhar para me sustentar (devido à natureza da carreira que (não) escolhi). Mas tais ameaças nunca se concretizaram, graças a Deus, e nunca duraram mais de um dia. De toda forma, entretanto, é ridículo o que meu pai tenta fazer nessas horas.
Por que ele quer que eu fique em casa? Ou saindo só de dia e perto, se não consigo ainda chamar amigos a irem nesse tipo de programa? Quando ele vai entender que não há como me manter em uma redoma, bolha, você escolhe? Que posso dar a mim a mesma frágil segurança que qualquer pessoa normal é capaz de dar a si mesma? Que preciso adiantar as minhas coisas para poder me virar, viver normalmente?
O que eu faço de errado?