Olá… Seja você bem-vindo/a ao Recovery Console.
Eu adoraria me apresentar, digitar meu nome e falar onde moro ou o que faço da vida, mas… este é um blog (esperançosamente) anônimo.
Deixe-me explicar: há uns tempos eu era uma pessoa muito pacata. Casa, escola, casa. Festas? Recusava. Saídas? Não ficava sabendo. Cinema? Um saco. Viagens com amigos? Nem pensar. Night? O que é isso?
Exceções eram raras. Tipo, 1 por ano. E das leves.
Nunca fumara. Nunca bebera, muito menos tomara porre. Nunca saíra só. Nunca voltara de madrugada ou após o amanhecer.
Nunca namorei nem fiquei nem transei nem beijei ninguém na boca.
Nunca nada.
E o pior: realmente achava que isso não me incomodava. Menosprezava os outros em suas diversões e me distanciava. Pensava que estava acima deles. Não entendia do que tanto se mostrava na TV e por aí se aquilo tudo… não existia ou era burrice.
“Pra que avisos sobre ouvir música alto nos manuais dos discmans? Ninguém é burro de fazer essa asneira! Já não sabem que vão ficar surdos?” “Bem feito os que morrem em acidente de carro após beberem.” “Essa gente se arrisca falsificando identidade pra entrar em boate. Pra que isso? É só esperar uns anos…” “Cigarro é tão ruim, não dá nem pra inalar a fumaça… por que tantos fumantes?” “Pra que se fala tanto sobre DSTs e Aids? Ninguém transa na primeira noite…”
De tanto rebaixar os outros, me sentia extremamente solitário em meu jeito “perfeito” de ser. E, geral sabe, solidão e tristeza costumam andar de mãos dadas.
Para compensar o que deixava de fazer, fantasiava. De manhã, brigava e matava mentalmente. Me suicidava em sonhos. À tarde, o travesseiro era minha garota (ou meu garoto, dependendo do dia). Fazíamos tudo. E mais um pouco. À noite, chorava.
Dois mundos. Um tênue, pernicioso equilíbrio. Que, eu sabia, precisava ser quebrado.
Só que eu realmente estava sozinho. Sem ter a quem pedir ajuda.
Passaram-se alguns anos, e percebi que estava sendo legalmente considerado um adulto. Tive de fazer uma identidade, um CPF… me alistar… Já podia comprar bebidas, cigarros, produtos perigosos, ir em casas noturnas sem ninguém ter o direito de dizer um “a”…
Mas as coisas não eram bem assim. Como vou fazer o que quero e esperar que meus pais entendam e aceitem automaticamente? Como vou conhecer alguém interessante, se geral parece só cuidar das suas coisas por aí? Como posso interagir com as outras pessoas? O que esperam de mim? Como vou conseguir emprego? O que vou fazer da vida após a faculdade? O que vou fazer da vida durante a faculdade?
Até tentei conversar um pouco sobre isso com meus pais, mas, ainda bem, percebi que esse não era o caminho.
Já havia também pensado em fazer um blog, logo quando isso estourou uns anos atrás. Mas menosprezava tanto o que era moda que não percebi que um blog era a melhor forma de gritar: I WANT TO RECLAIM MY LIFE!
Há males que vem pro bem. Aguentar uns anos extras de sofrimento me trouxe o empurrão que precisava para buscar a solução correta. Um dia, mais ou menos um ano atrás, conversando com uma pessoa que prezo bastante…:
— Fiz tanta merda no meu estágio ontem que falaram que eu podia estar deprimido e me indicaram uma psiquiatra. O colega pegou meu nome e telefone e disse que ia passar pra ela entrar em contato comigo.
— Você não vai se beneficiar de remédios e consultas corridas. E você não tem depressão. Eu tenho uma amiga psicóloga, conheço ela bastante. É a vocação dela, é raro ver gente que trabalha naquilo que tem o dom. Vai lá uma vez, pra ver qual é.
Liguei tímido, preocupado se a estava incomodando. Marcamos a consulta. A primeira de muitas.
Não sei se você percebeu que usei o pretérito mais-que-perfeito no quinto parágrafo desse post, mas o pretérito perfeito no sexto. Aliás, não sei nem se você sabe qual a diferença entre os dois pretéritos… tô brincando! Como você vê… algumas coisas já fiz. Outras ainda esperam a oportunidade.
Nesse processo ainda tenho muitas perguntas, alguns momentos de tristeza, e ainda me falta com quem compartilhar muito do que vejo, faço e penso. Porque as pequenas grandes coisas do dia-a-dia (que podem facilmente encher o saco do ouvinte), ou o comportamento alheio, ou a minha intimidade, ou a intimidade alheia, não dá pra compartilhar abertamente. Eu me queimaria, e talvez queimasse junto muita gente.
Por isso o blog, e por isso o anonimato.
Sim, eu tenho medo de algum dia meus amigos descobrirem quem está por trás do blog antes que eu esteja pronto para quando isso acontecer. Sim, lamento que por causa disso não poderei divulgar o blog tão eficazmente, e terei de ter paciência para que o blog engrene por si só. E sim, quero encarar o dia do post final com a coragem que agora tenho ao clicar em Publish Now.
Mas espero que, se descobrirem, não levem a mal o que estou fazendo. Porque tomarei todo o cuidado para não expor ninguém, eu sei que isso é muito importante. Porém igualmente importante é entrar em contato com quem talvez ainda esteja no meio de tamanha solidão, tamanha tristeza e tamanho medo. Entrar em contato também com quem não sabe o que passamos e acha que isso tudo é frescura.
Ter um lugar para compartilhar risadas e desabafar lágrimas. Um lugar para organizar o pensamento, refletir sobre tamanha loucura e tirar conclusões sóbrias. Um console onde se possa recuperar-se das surpresas boas, das exigências, dos revezes, das coisas desconhecidas da vida.
Agora eu grito: